Um manifesto Biopunk por Meredith Patterson
Colaboraram na tradução: Felipe Fonseca, Antonio Sevilha e Zeca Moraes
"Instrução científica é necessária para uma sociedade funcional na era moderna. A instrução científica não é educação científica. Uma pessoa educada em ciência pode entender ciência; uma pessoa instruída em ciência pode fazer ciência. A instrução científica permite às pessoas que a têm serem contribuidoras ativas de sua própria saúde, da qualidade de sua comida, água e ar, e das próprias interações com seus corpos e o mundo à volta delas."
A sociedade progrediu dramaticamente nos últimos cem anos no sentido da promoção da educação, mas ao mesmo tempo a prevalência da ciência cidadã decaiu. Quem são os equivalentes do século vinte de Benjamin Franklin, Edward Jenner, Marie Curie ou Thomas Edison? Talvez Steve Wozniak, Bill Hewlett, Dave Packard ou Linus Torvalds - mas o escopo de seus trabalhos é muito mais estreito do que o daquele realizado pelos filósofos naturais que os precederam. A ciência cidadã sofreu um problemático declínio em diversidade, e é esta diversidade que os biohackers querem retomar. Nós rejeitamos a percepção popular de que a ciência só é feita em laboratórios milionários de universidades, governo ou corporações; afirmamos que o direito à liberdade de investigação, de pesquisar e buscar entendimento de acordo com a direção própria de cada um é um direito tão fundamental quanto o da livre expressão ou da liberdade de religião. Não temos nenhuma briga com a Grande Ciência; simplesmente recordamos que a Pequena Ciência sempre foi tão crítica quanto ela no desenvolvimento do corpo de conhecimento humano, e nos recusamos a vê-la extinta.
A pesquisa requer ferramentas, e a investigação livre requer que o acesso às ferramentas seja irrestrito. Como engenheiros, estamos desenvolvendo equipamentos de laboratório de baixo custo e protocolos genéricos e acessíveis ao cidadão comum. Como agentes políticos, apoiamos publicações abertas, a colaboração aberta e o livre acesso à pesquisa financiada com recursos públicos, e nos opomos a leis que tentam criminalizar a posse de equipamento de pesquisa ou a busca privada de investigação.
Talvez pareça estranho que cientistas e engenheiros queiram se envolver no mundo político - mas os biohackers se comprometeram, por necessidade, a fazê-lo. Os legisladores que gostariam de restringir a liberdade individual de investigação o fazem por causa da ignorância e de seu gêmeo malvado, o medo - respectivamente a presa e o predador naturais da investigação científica. Se pudermos prevalecer contra aquela, dispersaremos este. Como biohackers, é nossa responsabilidade agir como emissários da ciência, criando novos cientistas a partir de todo mundo que encontramos. Devemos comunicar não somente o valor de nossa pesquisa, mas o valor de nossas metodologia e motivação se quisermos enviar a ignorância e o medo de volta para a escuridão de uma vez por todas.
Nós, os biopunks, nos dedicamos a colocar as ferramentas da investigação científica nas mãos de qualquer pessoa que as queira. Estamos construindo uma infraestrutura de metodologia, de comunicação, de automação e de conhecimento disponível publicamente.
Biopunks experimentam. Temos questões, e não vemos por que esperar que outra pessoa as responda. Armados com curiosidade e com o método científico, nós formulamos e testamos hipóteses para encontrar respostas às questões que nos mantêm acordados à noite. Publicamos nossos protocolos e o design de nossos equipamentos, e compartilhamos nossa experiência de bancada, de maneira que nossos colegas biopunks possam aprender com e expandir os nossos métodos, bem como reproduzir os experimentos uns dos outros para validá-los. Parafraseando Eric Hughes, "Nosso trabalho é livre para todos usarem, no mundo todo. Não nos importamos muito se você não aprova nossos tópicos de pesquisa". Nós nos baseamos no trabalho dos Cypherpunks que vieram antes de nós para garantir que uma comunidade de pesquisa largamente expandida não possa ser desligada.
Biopunks deploram restrições à pesquisa independente, porque o direito de chegar-se de maneira independente a um entendimento do mundo ao redor de cada um é um direito humano fundamental. A curiosidade não conhece etnia, gênero, idade ou limites socioeconômicos, mas a oportunidade de satisfazer essa curiosidade frequentemente se torna uma oportunidade econômica, e queremos quebrar essa barreira. Uma criança de 13 anos no South Central de Los Angeles tem tanto direito de investigar o mundo quanto um professor universitário. Se termocicladores são caros para que se dê um a cada pessoa interessada, então vamos projetar opções mais baratas e ensinar as pessoas a construí-los.
Biopunks se responsabilizam por sua pesquisa. Temos consciência de que nossos temas de interesse são organismos vivos que merecem respeito e um bom tratamento, e estamos muito conscientes de que nossa pesquisa tem o potencial de afetar aqueles à nossa volta. Mas nós rejeitamos enfaticamente a admoestação do princípio da precaução, que é nada mais do que uma tentativa paternalista de silenciar pesquisadores incutindo-lhes medo do desconhecido. Quando nós trabalhamos, temos em mente a melhoria da comunidade - e isso inclui a nossa comunidade, a sua comunidade e as comunidades de pessoas que poderemos nunca chegar a conhecer. Nós recebemos suas questões, e desejamos nada mais do que lhes empoderar para descobrir por vocês mesmos as respostas para elas.
Biopunks estão engajados ativamente em fazer do mundo um lugar que todos possam entender. Venha, vamos pesquisar juntos.
Original
•Scientific literacy is necessary for a functioning society in the modern age. Scientific literacy is not science education. A person educated in science can understand science; a scientifically literate person can *do* science. Scientific literacy empowers everyone who possesses it to be active contributors to their own health care, the quality of their food, water, and air, their very interactions with their own bodies and the complex world around them.
•Society has made dramatic progress in the last hundred years toward the promotion of education, but at the same time, the prevalence of citizen science has fallen. Who are the twentieth-century equivalents of Benjamin Franklin, Edward Jenner, Marie Curie or Thomas Edison? Perhaps Steve Wozniak, Bill Hewlett, Dave Packard or Linus Torvalds -- but the scope of their work is far narrower than that of the natural philosophers who preceded them. Citizen science has suffered from a troubling decline in diversity, and it is this diversity that biohackers seek to reclaim. We reject the popular perception that science is only done in million-dollar university, government, or corporate labs; we assert that the right of freedom of inquiry, to do research and pursue understanding under one's own direction, is as fundamental a right as that of free speech or freedom of religion. We have no quarrel with Big Science; we merely recall that Small Science has always been just as critical to the development of the body of human knowledge, and we refuse to see it extinguished.
•Research requires tools, and free inquiry requires that access to tools be unfettered. As engineers, we are developing low-cost laboratory equipment and off-the-shelf protocols that are accessible to the average citizen. As political actors, we support open journals, open collaboration, and free access to publicly-funded research, and we oppose laws that would criminalize the possession of research equipment or the private pursuit of inquiry.
•Perhaps it seems strange that scientists and engineers would seek to involve themselves in the political world -- but biohackers have, by necessity, committed themselves to doing so. The lawmakers who wish to curtail individual freedom of inquiry do so out of ignorance and its evil twin, fear -- the natural prey and the natural predator of scientific investigation, respectively. If we can prevail against the former, we will dispel the latter. As biohackers it is our responsibility to act as emissaries of science, creating new scientists out of everyone we meet. We must communicate not only the value of our research, but the value of our methodology and motivation, if we are to drive ignorance and fear back into the darkness once and for all.
•We the biopunks are dedicated to putting the tools of scientific investigation into the hands of anyone who wants them. We are building an infrastructure of methodology, of communication, of automation, and of publicly available knowledge.
•Biopunks experiment. We have questions, and we don't see the point in waiting around for someone else to answer them. Armed with curiosity and the scientific method, we formulate and test hypotheses in order to find answers to the questions that keep us awake at night. We publish our protocols and equipment designs, and share our bench experience, so that our fellow biopunks may learn from and expand on our methods, as well as reproducing one another's experiments to confirm validity. To paraphrase Eric Hughes, "Our work is free for all to use, worldwide. We don't much care if you don't approve of our research topics." We are building on the work of the Cypherpunks who came before us to ensure that a widely dispersed research community cannot be shut down.
•Biopunks deplore restrictions on independent research, for the right to arrive independently at an understanding of the world around oneself is a fundamental human right. Curiosity knows no ethnic, gender, age, or socioeconomic boundaries, but the opportunity to satisfy that curiosity all too often turns on economic opportunity, and we aim to break down that barrier. A thirteen-year-old kid in South Central Los Angeles has just as much of a right to investigate the world as does a university professor. If thermocyclers are too expensive to give one to every interested person, then we'll design cheaper ones and teach people how to build them.
•Biopunks take responsibility for their research. We keep in mind that our subjects of interest are living organisms worthy of respect and good treatment, and we are acutely aware that our research has the potential to affect those around us. But we reject outright the admonishments of the precautionary principle, which is nothing more than a paternalistic attempt to silence researchers by inspiring fear of the unknown. When we work, it is with the betterment of the community in mind -- and that includes our community, your community, and the communities of people that we may never meet. We welcome your questions, and we desire nothing more than to empower you to discover the answers to them yourselves.
•The biopunks are actively engaged in making the world a place that everyone can understand. Come, let us research together.